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sábado, 20 de fevereiro de 2010

QUARTA FEIRA DE CINZAS (2010) ISABEL SOUSA




Quarta-feira de cinzas (2010)
Isabel Sousa

Acabou o carnaval
São Pedro foi camarada
Mandou a chuva descansar
O que resultou afinal
Numa folia animada
Quatro dias sem parar.

Blocos - Enredos – tudo o mais...
Por todo o canto do país
Homenagens fictícias e reais
E um grito no coração:
Somos um povo feliz!!!!

Muito sol, muito calor...
Que queremos mais então?
Pedimos até, por favor,
Um fim à impunidade
Um fim à corrupção

Dois mil e dez, que ansiedade
Queremos paz – amor – honestidade!

“Arrombaram a Caixa de Pandora”
E, o dinheiro voou... voou...
Por onde ele andará agora?
Ah, ah, ah... O grupinho, até rezou
À noite festejou com pizza,
Mas... o dinheiro onde ficou?
Lá nos Bancos da Suíça.

E o melhor do carnaval,
Esquecendo cueca e meia,
Governador do Distrito Federal
Foi levado para a cadeia
Pra retiro espiritual

E os foliões cantaram
Muito bem afinadinhos
Em Brasília só escutaram
E ficaram caladinhos.

Carnaval está terminado
Direi então de passagem,
De mãos dadas samba e fado
À X - 9 Paulistana
Obrigada pela homenagem
À nossa terra Lusitana!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

QUEM SE LEMBRA DE PLUTÃO? - ISABEL SOUSA

Quem se lembra do Plutão?

Isabel Sousa



É um ser enigmático - gelado
Um dia foi batizado
Com nome de um Deus romano
O famoso Plutão
Oh, Deus!
No ano dois mil e seis
Foi alvo de discussão
Acreditem - não é treta
Deixou de ser planeta
E foi chamado de anão

Vagueiam pelo espaço
Os páreas do sistema
De asteróides batizados
Alguém perguntou então
Mostrando certo cansaço
Perante o grande dilema:

Onde cabe o Plutão?

Divisões de classes
Que se vislumbram no céu
Expulso da categoria
Por ser pequeno coitado!

E gira agora tristonho
Ao redor da sua estrela
Numa tensa instabilidade
De rei, foi a súbdito,
Que triste realidade!

O seu curso seguirá,
Duzentos e cinqüenta anos
Para uma volta ao sol
Depois de mais desenganos
Outras mudanças virão
Corpos rochosos - gelados
Deste sistema solar
Serão então rebaixados
Como o pobre Plutão

Expulso da categoria
Nem pode reclamar,
Até signos regia!
Era alegre – brejeiro
De repente – assim cassado
Como corrupto deputado
Ou um reles mensaleiro

Com toda a honestidade
Mesmo sem nada de seu
Sempre terá de verdade
Um lugarzinho no céu.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

CRÔNICA DOS BEM FALANTES - ISABEL SOUSA




“Crônica dos bem falantes”

Estou no Brasil desde 1964 - sabem o que achei engraçado e gostei, quando aqui cheguei?

Chamavam nas escolas ao nosso idioma: “Língua Pátria”.

Embora, talvez derivado de miscelânea de origens das mais variadas partes do mundo a “Língua Pátria” sofre modificações que de certa forma a enriquece.
Contesto sim, a enxurrada de estrangeirices, que para tudo tem que haver limite.

O meu bairro se chama “Brooklin Paulista”, todo o mundo pronuncia corretamente “Brukli”; e muitas dessas ruas têm nomes norte-americanos, como:
Rua Nebraska – Rua Indiana – Rua Nova York... Vem depois a Rua Miami (e ninguém erra na pronuncia) “Maimi”.

Por ironia navega por este bairro a Avenida Portugal, que atravessa a Rua Pensilvânia – Rua Flórida – Rua Arizona – Rua Orleans, etc. No meio destes nomes, temos outros nativos, em que eu acho ótimo, são genuinamente brasileiros, Grapicica –Guararapes –Arandú- etc. pesquisando sabemos sempre seus significados.

Estamos em um mundo globalizado:
Domicílio é uma palavra fora de moda, e quando a usam ainda carregam no acento grave (chamado no Brasil de crase) escrevendo: “à domicílio”, porém, é mais comum hoje “delivery”.

Outro dia recebi um slide de Portugal onde dizia mais ou menos isto:
“Fixe os olhos no gato” (e, lá estava um gato) “não mexa no “rato”, etc. Enfim, onde estaria o rato? Ao alcance de sua mão. No Brasil se diria não mecha no “mouse”.
“Site” lá é sítio. (O nosso sítio brasileiro lá é uma pequena Quinta)
Não deixa de ser divertido. Em compensação a nossa tela, lá é “écran”.
O que eu realmente contesto é a invenção de nomes estrangeiros.

No Brasil na há mais Diana, e sim, “Daiane e Daiana”, há Maikons –Jaksons, se misturam “ipslons” (is gregos), etc., como o diminutivo de Carlos Henrique, Caíque, virou nome próprio, escrito com pompa alguma vezes: “Kayky”.
Conheci um menino chamado Adolfo Hitler, outro Jean Charles... há quem coloque nome próprio de “Junior”, etc. etc....

É melhor ficar por aqui para não cansar o leitor.

Nossa Língua é forte e nunca cairá, pode sofrer transformações, e compete aos professores e jornalistas contestarem contra alguns eufemismos e “falsos poliglotas”.

Eu não sou nem jornalista nem professora, costumo dizer que gosto de brincar com as palavras, ás vezes é uma forma que encontro para pôr o meu eu para fora.

Fiquemos então com o aforismo de Fernando Pessoa:
“A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

Eu sinto isso mais do que ninguém, pois tenho mais anos de Brasil que de Portugal, e gosto de ser uma mistura dos dois países.

Quando aqui começo a conversar com alguém que não me conhece, recebo um sorriso acompanhado duma observação:
É portuguesa...

Eu retribuo o sorriso e respondo:
Com certeza.

Quando chego a Portugal, acham que sou brasileira então, eu digo que sou uma mistura luso-brasileira e, penso naquela frase batida:”Cada um é produto do meio em que vive”, e é verdade, a gente se agrega e mistura sotaques e costumes.
Uma coisa é certa:

Precisamos saber falar corretamente a nossa Língua.

Cuidado com as estrangeirices.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AMOR DE CAO - ISABEL SOUSA





Amor de um cão
(história verídica

Isabel Sousa


Porte de pastor
Olhar triste
Perambula sofredor

Sentimento sem igual
Ele perdeu a alegria
Quando o dono foi detido
Naquela delegacia

Que o dono fez afinal?
Não sabemos nem importa
Mas o amigo sentido
Não saiu mais lá da porta

Faça chuva - faça frio
Sol - ou longo estio...
Dali não arreda pata
Há quem pergunte então:
Que faz aqui este cão?

É um cachorro vira-lata,
Debaixo dum banco dorme,
Alguém lhe joga comida
E a tristeza o consome

É uma espera irracional
Como é todo o seu amor
E sua dedicação
Ei-lo soberbo – calmo e triste
Mergulhado na espera

Eu vos digo afinal
Com toda a convicção
É bela – quase irreal
A dedicação de um Cão.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

LÍNGUA PORTUGUÊSA - ISABEL SOUSA



Língua Portuguesa



(Do livro “O Menino Poeta”


De: Isabel C. S. Sousa


Meu amigo Luisinho
Chegou de Portugal
É diferente o seu jeitinho
Mas é um cara legal

Ele diz que acha “gira”
A menina que ele gosta
Passa por ela e suspira
Num grande amor ele aposta

Um pouco de confusão
No nosso vocabulário,
“Gira”, quer dizer bonitinha,
Esperta... engraçadinha

Ele diz então:
Oh, “pá” vamos brincar!
És um “gajo bestial”
Que quer dizer: um cara legal

Eu lhe jogo a bola
Ele a “atira” para mim
Agora o que me consola...
Há alguma diferença sim,
Mas nosso idioma é igual
Meu sotaque é brasileiro
O dele de Portugal

Lá o nosso goleiro
“Guarda-redes” é chamado
“Golo”!! Entrou certeiro
E, a bola rolou no “relvado”
Que quer dizer: no gramado

Nosso pedestre é “peão”
Abraço “chi-coração”
“Cortador” nosso açougueiro,
Luís vai à “casa de banho”
Mas eu vou ao banheiro.
Eu sento na privada
Ele senta na “sanita”...
Levo a mão à cabeça e cismo!
Enquanto eu puxo a descarga,
Ele puxa o “autoclismo”


E o nosso salva-vidas?
É chamado de “banheiro”
O frentista do Posto
Lá chama-se gasolineiro
Agora eu aposto,
As dúvidas estão resolvidas
Luís de qualquer maneira
Já sabe que “parlapatão”
É o nosso impostor
Que sua “hospedeira”
É a aeromoça brasileira
Que o nosso colibri
É o seu chupa-flor,
E o nosso grampeador
Lá chama-se “agrafador”
A “chucha” é nossa chupeta
E, “Biberom” a mamadeira

Os “comboios” ligeiros
São nossos trens afinal,
E os ônibus brasileiros
“Auto-carros” em Portugal

E, a fila? Que engraçado!
De “bicha” é chamada,
Luisinho admirado
Parece não entender nada!
Eu lhe digo bem brejeiro,
Que “bicha” aqui é veado
E que lá é “paneleiro”

“Almeida” nosso gari
O “tele-móvel” celular
Cor “encarnada” é vermelha,
Sorvete é um “gelado”
E balinha “rebuçado”

Já nem sei mais o que falo,
O nosso jogo da velha,
O deles é jogo do “galo”.

Com toda a confusão,
Chego a uma conclusão:

Nenhuma dúvida fica,
Digo com toda a certeza:
Como é bela e rica
Nossa Língua Portuguesa!





Temos aqui uma bela construção poética de nossa amiga Isabel, e que faço questão de colocar bem aqui o meu comentário. Ela trata a língua portuguêsa como objeto de união dos povos fazendo aproximação das palavras. Belo poema Isabel!!

Ana Maria Maruggi

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MAR DE LISBOA - ISABEL SOUSA


Lisboa vista da Torre de Belém - Portugal - Foto de Vitor Oliveira


Mar de Lisboa



Tenho saudades do mar!

Daquele mar enorme...

Ora suave ora turbulento

Na muralha eu ficava a olhar

O mar que nunca dorme

Embalado ao vento


O mar que cheira à minha infância

Parece-me ouvir o seu lamento

Mesmo a longa distância

Vejo dum navio a proa...

Gaivotas grasnando ao vento

Nas pacatas margens de Lisboa


Ouço o seu bramar

Sublime informe e sedento

Que saudades daquele mar

Que saudades daquele vento!

Vista de Lisboa

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

HOMENAGEM A SÃO PAULO PELO ANIVERSÁRIO DA CIDADE - ISABEL SOUSA





Homenagem a São Paulo
Isabel Sousa


Vou ao encontro da minha infância
E vejo-me nas muralhas do Tejo
A mente transpõe qualquer distância
E aquele tempo claramente o revejo
Espero no cais - amigos ou parentes
Caem as amarras dos navios
O vento sacode as águas transparentes
Minha imaginação navega tão distante!
E de olhos fechados sinto doces arrepios
É Sonho - é doçura delirante!

De súbito, olho ao meu redor
Liberto-me da paisagem do passado
Não vejo mais o Tejo no esplendor
É que vivo hoje do outro lado

Sinto-me envolta em poesia
Uma necessidade em me expressar!
A natureza tem algo que me inebria
Mas o acaso me distanciou do mar

Quero calar em mim a ansiedade
E amar o lugar que me dá guarida
Sobrevivo nesta imensa cidade
Ela faz parte da minha vida
Há em mim um não sei quê
Que me diz que farei sorrindo
Um poema doce e lindo
Aos rios – Pinheiros e Tietê!

“Ai São Paulo – São Paulo da garoa”
“São Paulo que terra boa”!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

VOVÓ SÉCULO XXI - DO LIVRO O MENINO POETA DE ISABEL SOUSA





Vovó século XXI

Como é bom ter uma avó!
Companheira que ela só!
Conta histórias de encantar
Branca de Neve – Cinderela...
Canta canções de ninar,
Não me imagino sem ela

Conta que o lobo mau é bom,
Que não comeu a avozinha,
Pois quando o encontrou
No caminho da floresta
Deu-lhe tanto carinho
Mais parecia um cachorrinho
E pra ele tudo era festa

Ela inventa e diz então,
Que a vida é uma comprida linha
Que a ponta final é a dela
E que a do inicio é a minha
Tenho que correr pra pegá-la
Soltando a imaginação
Um dia vou alcançá-la.

Sabem que a minha vovó,
Leva-me a passear
Acompanha-me à natação
E ensina-me a nadar?

Quando ela está por perto
Não tenho medo nenhum,
A minha avó é decerto
Vovó século XXI.

Do livro “O Menino Poeta” de Isabel C. S. e Sousa

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SÃO PAULO - POESIA DE ISABEL SOUSA

Homenagem a cidade de São Paulo que fará 456 anos no dia 25 de janeiro de 2010.

SÃO PAULO

Cidade que amanhece
Sob o céu pardacento
A poluição trafega
Mas o sol aparece
Sorri, e nos aquece...

São Paulo que cresce
São Paulo que se agita
Cidade que não dorme
Chora - ri - e grita!

As aves que cantam
Nas copas das árvores,
Os silvos do Bem-te-vi,
Os trinados do sabiá...
E mais aves esvoaçam
Gorjeiam pra lá e pra cá

Cidade de todos os credos
Respira por todos os poros
Metrópole cheia de histórias
Seu povo é oriundo
De todas as partes do mundo

Cidade dos contrastes
Cresceu vertiginosamente
É a maior do Brasil
É uma cidade imponente!

Padre Anchieta é seu patrono
Ergueu orgulhoso a bandeira
Sendo um dos fundadores
E inspiradores
Da cultura brasileira

Com sua força então
A partir,
Dum humilde barracão
Além da Serra do Mar
Foi desbravado este chão

Seu povo perseverante
Fez da pequena São Paulo
Uma cidade gigante!



PARABÉNS SÃO PAULO!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MINHA PRIMEIRA OFICINA DE TEXTOS


http://www.poiesis.org.br/casadasrosas/



CASA DAS ROSAS - ESPAÇO HAROLDO DE CAMPOS DE POESIA E LITERATURA.






Oficina Idéias e Ideais

Foi aqui que, numa visita informal, tornei-me frequentadora de minha primeira oficina de textos.


Monitorada pela Ana Maria a oficina foi rica de aprendizado com enorme variedade de temas sugeridos: Bossa Nova e a Garota de Ipanema, Meu primeiro amor, Eu Avenida Paulista, Sala de Espera, e tantos outros. Todos os encontros eram cheios de surpresas, videos, leituras, brincadeiras, e muita criação. O dia seguinte era esperado com ansiedade, pois tínhamos desenvolvido um texto sugerido como tarefa em nossa casa, então ansiávamos por mostrar como estávamos nos dando bem com nossos textos.


Em breve outra oficina vai começar e eu estarei lá!

domingo, 17 de janeiro de 2010

SONHO DE UMA CIDADÃ - ISABEL SOUSA




Sonho de uma cidadã

Isabel Sousa


Deu-me uma vontade danada
De me candidatar a Prefeita!
Eu sei que seria eleita
Mas o tempo se esgotou
Não posso fazer mais nada.
Estou pensando firmemente
Do Brasil ser Presidente

Certo candidato a Prefeito
Tempo atrás me alertou
Dizendo se fosse eleito
Duas lajes iria construir
Sobre os nossos rios famosos
O Pinheiros e o Tietê,
Que o trânsito iria fluir
A noventa ou cem por hora!
Aqueles rios famosos
Conservam um não sei quê
Da nostalgia de outrora!

Eu prometo então
Quando eleita Presidente
Ao deleitar-me no Planalto
Com minha nata ambição
Neste país colossal
Construirei afinal
Uma ponte bem no alto...
Sob o imaginário meridiano
Ao encontro de Portugal
“À beira-mar plantado”
Firmes lajes de concreto
Sobre o Atlântico Oceano
Linhas curvas ou retas
Será só acelerar!
Eu gosto da aventura
Olhando a arquitetura
Naquele espaço sem fim
É meu desejo ardente...
Ambições – ambições!


Nas próximas eleições
Votem em mim
Pra Presidente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

MEU CÉREBRO - Isabel Sousa


Meu cérebro

Meu cérebro é um arquivo ordenado
Conserva lembranças do passado
Mas sinto que lá bem no fundo
Há neurônios adormecidos
Talvez inundados da fragrância
De um distante e pequeno mundo
Que remota à minha infância
Tênues lembranças de tempos idos

Meu cérebro
Dono dos meus pensamentos
Ele me comanda – ele sou Eu
Sinto as conexões cerebrais
Mistura de tristezas e alegrias
Mágoas – suspiros – sorrisos e ais
Que persistem em meus dias

Eu não quero sentir-me triste
Aí meus neurônios entram em convulsão
E uma voz sai da minha mente e diz:
Felicidade não existe
Há mágoas em teu coração
Que não te deixam feliz

E, o cérebro me domina
Seria só arquivar
No recanto do esquecimento
Tudo o que me fez sofrer
Eu só queria esquecer
Pois já foi há tanto tempo!

Preciso lutar - comandar minha mente
Acabar com as confusas sensações
Mandamos no cérebro... ou ele manda na gente?
O Eu controlará minhas emoções
Estabeleço um diálogo interno
Descubro minha força pessoal
Vejo que nada no mundo é eterno
Nem meu arquivo cerebral.


Isabel Sousa

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ESPERANÇA? - ISABEL SOUSA




Esperança?

Enfim, uma noticia animadora vinda das bandas de Espanha.

Talvez sirva para eu parar de pensar que o ser humano continua “tribal”, e que nele se está acentuando cada vez mais a parte animal irracional. Depois do decorrer de inúmeros casos contra irracionais e... racionais, chego à conclusão que psicopatas em potencial se têm desenvolvido nos últimos tempos; sim, por que a ausência de sentimentos só será justificada com essa anomalia.

Voltando à noticia vinda de Espanha abordando a barbaridade das Touradas, espetáculo que durante uma infinidade de anos empolgou multidões perante tanta covardia.

Acabar com as touradas seria acalentar uma esperança na humanidade. Elas são praticadas em Espanha, onde o auge é matar o touro em plena arena, em Portugal é proibido matar o touro, mas, massacrá-lo é “lindo”! a elegância do toureiro leva multidões ao delírio, até canções alusivas à sua “coragem”; me lembro de algo assim:
“Toureiro de lusa raça/ De porte altivo e cortês/ Levanta em peso uma Praça/ Derrubando a brava rês “... ou: “Espada cravada de loiros/ Tu és o maior entre tantos/ Bravo matador de toiros/” etc. etc.

No México também se praticam touradas, mas não com a empolgação de Espanha onde elas fazem até parte dos programas turísticos.

Aproveitando a oportunidade direi que também está na hora de acabar com os rodeios no Brasil, a violência contra animais é muito triste e inadmissível.

A briga dos galos foi proibida, embora, clandestinamente em alguns lugares ainda seja praticada.

Neste fim de ano gostaria de alertar uma parte do ser humano que se acomoda na frase:
“O mundo não tem mais jeito”!

Porém, terá sim, não esquecendo que somos seres pensantes e atuantes.

Este desabafo servirá também para olhar de frente o cenário político que se desenrolou em Brasília, infelizmente nada surpreendente, e sabemos que mais uma vez a sujeira será arremessada para debaixo do tapete.

2010 está chegando, e mais uma vez renovamos nossa esperança em melhores dias.
Lutemos por um mundo melhor – abaixo a impunidade – abaixo a hipocrisia de fechar os olhos e de querer fazer acreditar aos incautos que nada está acontecendo.

É tudo natural, tudo o que acontece de mal, a culpa é de Pedro Álvares Cabral!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

MEU PRIMEIRO AMOR - ISABEL SOUSA

Este foi o primeiro texto que a Isabel criou na Oficina Idéias e Ideais da Casa das Rosas em 2008. Ela chegou e já foi falando de amor...






MEU PRIMEIRO AMOR

Meu primeiro amor passa em minha mente um tanto ofuscada por lembranças distantes.

Direi que ele aconteceu assim que aprendi a ler, ensinada pela minha irmã mais velha, bem antes dos sete anos, que era a idade de se entrar na escola.

Logo comecei a encantar-me por poesia, e a interessar-me pelos poetas. Aí, me apaixonei por Camões e ouvia a sua história com o mesmo encanto com que escutava a Branca de Neve, Cinderela... E outras fábulas.

Eu via tudo na minha imaginação...

Camões erguendo a bandeira portuguesa no final duma batalha em Fez, um mouro moribundo criou forças inexplicáveis empunhando a arma, e um tiro certeiro vazou o olho direito de Luís de Camões.

Tantos feitos!

Outro que muito me impressionou foi quando ele salvou os Lusíadas se atirando ao mar revolto numa tempestade temerosa com a mesma ânsia com que se tenta salvar um filho. Na mesma embarcação estava Dinamene, uma escrava que ele amava com paixão. Não deu para salvá-la. Ele tentou, mas não conseguiu, Dinamente foi tragada pelas águas, porém, os Lusíadas “A história de Portugal epicamente narrada” foram salvos, e o tornou imortal.

Talvez tenham sido criados mitos sobre suas paixões, não posso prolongar esta narrativa, poderia tornar-se enfadonha. Uma verdade é que ele morreu na miséria depois de ter vivido no auge e seu antigo escudeiro angariava esmolas para sobreviverem.

Acrescentarei o seguinte para justificar minha paixão por Camões:

Tive uma amiga que gostava de falar do tempo da escravidão, e me dizia:

Ah! Deveria ser bom ter escravos!

Perguntei-lhe:

Acreditas na reencarnação?

Deu uma gargalhada, e, eu também ri por que também não acredito.

Mas lhe disse:

É que fiquei pensando, que tu no passado deves ter sido uma sinhá, e, eu acho que fui a Dinamene.

Aos sete anos de idade eu escrevi o seguinte:

Luís Vaz de Camões
Símbolo da nossa história
Merecia ovações
Que o enchessem de glória

Por esmolas angariadas
Pelo Jau criado seu
Ele viveu horas amargas
Em Lisboa onde morreu.

AMOR UNIVERSAL - ISABEL SOUSA




AMOR UNIVERSAL

Amor universal?
É um mito.
Imaginar um amor universal será como uma viagem fabulosa que nos levará a um mundo que jamais existiu.
A própria Natureza nos confunde!
A luta pela sobrevivência é dura demais em todos os aspetos. Olhando os seres irracionais somos obrigados a entendê-los, por que eles agem por instinto, porém, os chamados racionais, a humanidade, na sua desmedida ambição, no seu egoísmo, e nos tempos de hoje acentuado o individualismo patente no subconsciente de todo o ser humano, torna impossível o amor universal.
Sonhei um dia com esse amor e o transportei ao ano 3000.
E como ser pensante, acredito que ele seria possível.

ANO TRÊS MIL


Violência, opressão,
Intolerância. Injustiça,
Palavras há muito banidas
Deste planeta Terra
Ninguém sabe o que foi guerra,
Algo perverso, sem razão,
Quem nela lutou sequer a entendeu...
Alucinação!

Armas? O que é isso?
Objetos de museu,
Impossível imaginar
Que algum dia
Alguém as empunhou
Contra o seu semelhante

Deve ser lenda
Produto da imaginação
De mentes doentias
De um passado distante

Houve gente sem teto,
Crianças abandonadas
Mendigando afeto
Sociedade injusta
Um dia se perdeu
Em um mundo sem nexo!

Ano três mil
Só há amor, paz...
Fraternidade, dignidade,
Em cada rosto um sorriso
Um amigo em cada canto

Há música...
Chilrear dos passarinhos
A graça do beija-flor,
A imponência do condor
Pelos céus a navegar

Inúmeras espécies
Dos mais belos animais
Verde, flores e mais flores
As rosas não têm espinhos
Exalam doce perfume

Cristalinas águas,
Suavidade dos rios
Imensidão dos mares
Harmonia... Gente feliz!
Num mundo global
Força, união, respeito...
É a voz, do Amor Universal!


RENOVAÇÃO - ISABEL SOUSA




RENOVAÇÃO

Abro os olhos brandamente... O dia desperta belo e manso... Músicas, poesia, se embaralham em minha mente.
Ouço os trinados dos passarinhos ensaiando sua orquestra matinal.
Suavidade...
Embalo meus sonhos...
As aves se agitam nas rumorosas folhas das árvores, os galhos balançam e se abraçam.
Depois o silêncio...
Olho ao redor e envolto numa pitangueira vejo um ninho de sabiá.
É vida... Esperança... Renovação!
Mais além flores se abrindo, o dia deslizará até a noite chegar e milhões de estrelas mesmo escondidas sorrirão em suas constelações, iluminando e contemplando o nosso misterioso mundo.
Este tempo primordial no hemisfério sul chega a nós com a aproximação de Setembro, assim eu sinto a juventude se aninhando timidamente em meu peito:
Começo mais um dia, sorriu e penso:
Estou viva!

AMOR PLENO - ISABEL SOUSA




Amor pleno

Que o amor amplie nossos horizontes e concretize nossos sonhos.

Este é o anseio pleno de todo o ser humano que nasce com a capacidade de amar, com aquele sentimento que pré- dispõe o individuo a desejar o bem do outro.

Todavia, ao se falar de amor, vem à nossa mente aquelas paixões arrebatadoras entre dois seres que juram se amar eternamente. É o amor sem limites, eles unem seus destinos e se complementam.

Um amor assim na época de hoje é raro se encontrar.

O tempo da “cara-metade” não existe mais, porém, eu creio que o amor entre duas pessoas inteiras é bem mais saudável. É sublime desejar ficar ao lado de alguém até ao fim da vida, sempre com a mesma cumplicidade... sorrir ao olhar as rugas que sulcam seus rostos e dizerem um para o outro:

Estas são as marcas da nossa maturidade.

Na verdade o amor fragmentado faz parte da vida, mas é pequeno.

Eu acredito no Grande!

ANDRÉ - ISABEL SOUSA




André

Isabel C. S. Sousa


André era um menino desnutrido, olhos profundos, dez anos de idade, mas fisicamente aparentava sete. Possuía uma inteligência peculiar.

O pai embrutecido pela rudeza a que fora submetido por toda a sua vida não entendia nem a fragilidade do pequeno André. Foi numa tentativa duma aproximação mais humana que a criança se dirigiu ao pai:

- Pai, estou cansado desta vida, eu queria ir à escola estudar e brincar como outras crianças.

- Que diabo te deu moleque? Carrega esses feixes secos e aprende a ser homem!

- Eu sou uma criança, pai.

- Da tua idade eu já trabalhava, deixa de fazer corpo mole.

Consciente ou não, o pai estava duro demais para se compadecer ou entender as lágrimas quase silenciosas duma criança que só queria crescer com dignidade.

ALBERTO - ISABEL SOUSA




Alberto
Isabel C. S. Sousa

Alberto se caracterizava pela sua simplicidade, mas sua esguia figura e seus olhos negros chamavam a atenção de quem o olhava, seus dentes alvos brilhavam em seu rosto moreno.

Naturalmente simpático exercia um fascínio nato, e qualquer coisa de enigmático o diferenciava dos outros colegas. Alberto era motorista de ônibus, daqueles ônibus que circulam em S. Paulo no complicado aglomerado de veículos – motos – gente - que em determinadas horas causa estresse em qualquer um.

Ele conservava a calma – educação – e, cumpria seu dever com maestria.

Curiosa, perguntei-lhe se nunca se irritava com os vários acontecimentos da falta de cidadania – com os congestionamentos e, tudo o mais desta metrópole que tantas vezes nos cansa.
Sem titubear respondeu:

Sou profissional, e como tal sinto-me na obrigação de conservar o meu estado de espírito atento a tudo ao meu redor, cumpro o meu dever.

Quando chego em casa abraço minha mulher e filho e esqueço que sou motorista.

Sonhei um dia ser médico, minha origem muito pobre não me deu oportunidade nem de tentar.

Acredito que se o tivesse sido seria um grande médico.

Precisamos ser bons em tudo que fazemos.

Recebi uma lição de cidadania.


SÓ UMA PEDRA - ISABEL SOUSA




Só uma pedra
Isabel C. S. Sousa


Pedrinho brincava num monte de areia em seu quintal, um muro o separava da rua onde era intenso o tráfego. Sua imaginação estava completamente alheia ao movimento lá fora.
Achou uma pedra pontiaguda que o incomodou e no mesmo instante a arremessou para a rua.
A mãe assustada o repreendeu e gritou:
Que fizeste Pedrinho!
Com um doce sorriso, simplesmente respondeu:
Que mal tem, era só uma pedra mamãe!

CRIANÇA É CRIANÇA - ISABEL SOUSA





Criança é criança

Isabel C. S. Sousa


Como é bom acompanhar o desenvolvimento duma criança e procurar entender a sua lógica, sim, por que nem sempre é igual à nossa, mas, bem no fundo ela é concreta, à sua maneira, é certo.


Há uma frase batida que eu sempre a contesto, pois me lembro de ouvi-la desde criança.


-“Ah, as crianças de hoje!”


Criança de ontem, de hoje, de amanhã... Na sua pureza - sua inocência – é simplesmente criança.


Se a criança de hoje fosse diferente da de ontem, não acreditaria em Papai Noel.


Ela é sempre uma esperança.


Soltando a imaginação
Uma menina dizia
Em suave melodia
Numa terna invocação:

Eu sou a criança
Eu sou o amor
Eu sou a esperança
Dum mundo melhor

Ajude-me a erguer
Quando tropeço
Com todo o carinho
Que sempre mereço

Ensine-me a enfrentar
O mundo que avança
A trilhar meu caminho
Com mais segurança

Eu sou o futuro
Eu sou a esperança.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A MORTE - ISABEL SOUSA




A morte

Os anos passaram lentos – monótonos - e os bons velhinhos nem olhavam para trás, seus olhos cansados não enxergavam mais as cores do mundo. Sabiam que já haviam passado há muito dos noventa, estavam beirando os cem anos de idade.
Lembravam-se das bodas de Prata - de Ouro – de Diamante – dos treze filhos que tiveram, e que andavam por este mundo afora tentando melhor sorte. Possivelmente em S. Paulo, o sonho dos nordestinos.
Em um lugar escondido no sertão de Pernambuco os simpáticos velhinhos viviam como se os dois fossem um só.
Pegavam da terra o sustento que seus corpos fragilizados precisavam. Ainda sabiam sorrir, seus rostos sem viço faziam lembrar figos secos há muito guardados em uma velha despensa.
Naquela tarde de sol, sentados nas cadeiras de balanço, balançavam... balançavam... devagar – tudo o que faziam era lentamente – os anos lhes foram tirando as energias – eles também não tinham pressa. Conversavam pausadamente – repetiam os assuntos – pois naquele sertão nada acontecia e suas mentes já nada criavam. Não que tivessem abolido o sentido de amar – sonhar – mas tinham desaprendido muitas coisas essenciais. Amavam-se, cada um ao seu jeito, sem ambições de poder, queriam simplesmente viver.
Naquele final de tarde eles falavam da morte feia e fria. A velhinha dizia:
Quando ela chegar iremos os dois juntinhos – não agüentaríamos viver um sem o outro.
O vento varria as folhas secas – e uma pancada na porta se fez ouvir – assustados os bons companheiros trêmulos perguntaram:
Quem é?
A morte – venham abrir...
Os dois se olharam com o medo estampado nos rostos e disseram:
Não conhecemos você, então não abriremos.
A Morte insistiu:
Está na hora – abram – venho trazer-lhes o descanso.
Aterrorizados com a cumplicidade no olhar não se moveram.
Vai você, diz a mulher.
Ao que o homem respondeu:
Não posso, minha perna está doendo – abra você por favor.
Ela estarrecida continuou imóvel.
Ambos olharam através da vidraça as velhas árvores firmes e fortes que haviam sido plantadas pelas suas próprias mãos e, murmuraram:
Plantamos árvores – tivemos filhos – lutamos juntos com muito amor...
O homem pensativo ergueu os olhos ao céu e pausadamente articulou:
Falta-nos escrever um livro – nossa missão não está cumprida aqui na terra – conversaremos com a Morte e entraremos em acordo.

Vá à minha frente eu ficarei para escrever um livro em nome de nós os dois – falarei do sertão – do nosso amor – dos nossos filhos...
Vá e espere lá que eu irei depois.
Ela replicou:
Como partir sem você? Se você não abrir a porta eu também não abrirei.
Apesar de velhinhos eles estavam voltados para a vida e não queriam deixá-la.
Cúmplices ergueram-se sorrateiramente e encaminharam-se para a velha cama de ferro deitaram-se e fecharam os olhos.
Uma sombra entrou pela janela abeirou-se do leito e deu-lhes o eterno descanso.
Pela manhã alguns amigos e parentes absortos fizeram o sinal da cruz.
Confiantes na vida acompanharam os hirtos corpos libertos e extintos à sua última morada.

INVENÇÃO - ISABEL SOUSA




Há muitos e muitos anos uma história se passou algures num ermo sítio.

Dois velhinhos bem casados – analfabetos convictos – espreguiçavam-se certo dia em que ouviram uma noticia fantástica:

Havia sido inventada uma máquina de escrever – isto foi no tempo muito antes da taquigrafia.
Olharam o seu burrinho e simultaneamente pensaram:

Uma viagem à cidade mais próxima para verem essa máquina... seria uma boa idéia.
Ora – ora – os filhos longe...

Raciocinaram então:

Com essa máquina poderemos mandar noticias aos nossos filhos!

Vestiram a melhor roupa, dinheirinho nos bolsos, montaram firme o simpático jumento, e lá foram rumo à cidade grande.

Quanto tempo demorou?

A história não contou.

Ao chegarem à cidade procuraram e encontraram a sonhada máquina.

Perguntaram ao vendedor:

Escreve de verdade?

Claro, tudo o que vocês quiserem.

Compraram.

Regressaram então ao pequeno sítio onde moravam.

Ansiosos colocaram o tão almejado objeto sobre a mesa, introduziram um papel branco no lugar certo e, começaram a falar bem alto na direção das teclas:

Querido Bira - ocê é o primero a recebê noticias de papai e mamãe – com esta máquina ocê não precisa aprendê a lê nem escrevê – é só sabê falá.

E, aquela geringonça permaneceu quieta e fria...

Desolados resolveram voltar à cidade para “aprenderem” como manejar a respectiva máquina.
Pegaram o burrinho e lá foram cabisbaixos.

Escusado será dizer que nada conseguiram. No caminho resolveram então que ela serviria de adorno como objeto raro, ficaria bem na frente da porta da entrada sobre aquele bonito móvel rústico que eles tanto gostavam.

Assim, trotando o animal já cansado, a mulher dizia afetuosamente dirigindo-se ao pachorrento burrinho:

Eu te digo a ti – cá homes praí mais bestas que tu mê burro.

Os dois companheiros continuaram unidos até ao fim de seus dias e descrentes das invenções dos homens.

IPITÁCIO E IRACEMA - ISABEL SOUSA



Ipitácio ama Iracema
E ela nem percebia
Mas ao ver o tal poema
Vibrou então de alegria.

Ipitácio lá na praça
Recitou com emoção
Bem alto cheio de graça
Estas rimas de montão:

“Sou caipira tenho fama”
“Mais caipira é quem me chama”
Sou poeta bem grandão
Tenho sempre os pés no chão

Outro dia, eu peguei um papelsão
Escrevi... escrevi... rimas de montão

Que poema bestial!
Mostrei-o à minha amada
Abriu o bocão afinal
Não sabia que era casada
Com o grande poetão
E me disse de chupetão:

Amor do meu coração
Sempre te achei um jumentão
Agora, te acho um figurão!
Letrado – poeta – queridão...

E, com tanta intensidade
Serei poeta e maridão
Neste nosso mundo cão
Até à eternidade!

CAMINHOS OPOSTOS - ISABEL SOUSA




Caminhos opostos

Isabel C. S. Sousa


Parecia tudo cor-de-rosa – depois de um casamento regado por uma paixão avassaladora - amor estilo romântico – tranqüilo... doce...


Ana - vinte e cinco anos – sedutora – olhos brilhantes – corpo graciosamente arredondado – passos macios e firmes – possuía tudo o que fascinava Pedro.
Pedro – cerca de trinta e cinco anos - era elegante - olhos esverdeados iluminavam seu rosto moreno – sua conversa fluía com desenvoltura e se denotava certa experiência de vida.


Ana se encantou por ele.


Seria o casamento perfeito, juntando os sonhos de ambos e estabilidade financeira.


Assim, algum tempo se passou e Ana fazia de sua vida um conto de fadas.
Até que um dia, há sempre um dia que nos rouba a fantasia. Em um programa de TV, Ana vê a foto de seu marido estampada na telinha fazendo parte dos procurados pela policia.


Foi como se a noite baixasse de repente e as estrelas se apagassem.
Descobriu então, que ele era traficante.


Atordoada pensou conversar com ele – pedir-lhe para mudar de vida.
Perguntar-lhe por que a havia enganado?


Seria óbvia a resposta, ele diria:


“Se eu lhe contasse você me rejeitaria e eu a amo demais!”


Não havia dúvida que ambos se amavam.


Ana pensou muito de inicio e tentou fingir ignorar a vida dupla de Pedro. Mas era difícil, se sentia hipócrita. Então abriu o jogo revelando ao marido a sua descoberta dizendo que não iria ser cúmplice fingindo que nada sabia - e reforçou – ou você sai dessa vida ou nosso casamento acaba aqui.


Pedro fez um enorme esforço para se manter calmo: Ana, eu amo você, só quero o seu perdão, mas o meu envolvimento é tão grande! A minha cabeça está a premio. Tentei levar uma vida digna depois de conhecer você, mas a vida do crime chega a tal ponto que não tem mais volta.


Alojou-se em seus corações a sensação angustiante do fim de uma história que poderia ter sido e não foi.


Quando a policia chegou Pedro entregou-se sem resistência, mas antes abraçou a esposa pedindo perdão novamente.


Foi como se tivessem construído ao redor de suas vidas um belo jardim de cristal, e que uma tempestade destruiu repentinamente, cujos estilhaços atingiram ambos profundamente.


Ana o perdoou, mas não poderia mais viver com ele. A pena de trinta anos os separou para sempre.


Foi então, que rumou sua vida amorosa para outra paixão que a levou a construir um novo jardim, mas, desta vez com bases mais sólidas.

PRESENTE DE NATAL - ISABEL SOUSA




Presente de Natal


Inúmeros contos de Natal já foram contados - recontados - e quase todos com o mesmo cenário.

A neve caindo como flocos de algodão – Papai Noel com seu trenó puxado pelas elegantes renas...

Este quadro poético todos os anos se aviva em nossa memória.

A neve sempre foi alvo de inspiração aos poetas e sonhadores. Basta imaginá-la para vê-la através das vidraças – então admirar os caminhos brancos e sublimes.

No entanto, a minha narrativa começará assim:

A chuva torrencial desaba impiedosamente sobre o Morro do Ipê amarelo – os moradores lutam para salvar seus parcos haveres...

Se ao invés da chuva fosse:

A neve cai suavemente sobre o Morro do Ipê amarelo – os moradores se extasiam e bendizem a Natureza...

Se seus habitantes não fossem pobres seria uma lindíssima paisagem – caso contrário eles ficariam enregelados e incapazes de se locomoverem.

Retornemos então ao Morro do Ipê amarelo.

O cenário é real e por vezes trágico, não quero dar-lhe uma dimensão de fatalidade, simplesmente pretendo narrar uma história de um Natal tropical.

A chuva cai incessante depois de um dia de sol ardente – há um misto de alegria e tristeza no ar.
Depois da luta pela sobrevivência – a chuva dá uma trégua.

É Natal!

Mas há sempre uma saudade no dia de Natal, por alguém que está longe ou, que já se foi para sempre.

Dentro dos toscos lares há luz – há esperança – risos – sobretudo na agitação das crianças que ansiosas esperam o Papai Noel.

A meia-noite se aproxima, então o Bom Velhinho de barba branca e sacola vermelha faz sua aparição escorregando por vezes no chão lamacento, mas é a hora de esquecer as dificuldades.

Distribui sorrisos, simples brinquedos e algumas roupas.

Entretanto, na casa do “seu” João havia duas crianças decepcionadas esperando em vão algum brinquedo ou alguma roupa. A mãe fora levada com urgência para a maternidade, e a comunidade ao meio do reboliço achou por bem respeitar o silencio da casa dos vizinhos.

A noite passou - o dia raiou – a mãe chegou perto do meio-dia.

Com o bebê ao colo e a alegria estampada no rosto abraçou com emoção os pequenos Rita e Luís dizendo-lhes cheia de amor:

Meus queridos, aqui está o presente do Papai Noel – olhem como é lindo!

Rita e Luís baixaram os olhos e responderam em coro:

Presente coisa nenhuma – Papai Noel se esqueceu da gente.

Em vão os pais tentaram melhorar a situação com várias promessas.

Outros natais vieram - Paulo foi crescendo – Rita e Luís mal o olhavam – ele representava a lembrança de um Natal triste – nunca queria brincar com ele.

No Morro do Ipê amarelo há pessoas que se consideram felizes apesar das dificuldades do local – conformadas – sonhadoras – há um mistério – um fascínio – quando os Ipês florescem o sol brilha e penetra nas ruelas.

O mato cresce livremente pelas encostas onde crianças brincam alheias aos perigos iminentes, nos encanta e ao mesmo tempo uma tristeza nos invade ao olhar aquele lugar desprovido dos recursos mais elementares.

Repete-se o Natal e nada muda.

Inicio do século XXI, e tanta gente vivendo sem conforto! Enquanto a pouca distância – outro mundo existe – progresso – sonho- magia – e ricas construções.

O Morro do Ipê amarelo lá está – uma capelinha improvisada bem no topo repica os sinos anunciando mais uma vez o nascimento de Cristo.

O dia amanheceu ensolarado, parecia rir da chuva forte da véspera.

Rita e Luís correram pela encosta do morro, Paulinho chorou que queria acompanhá-los. E, ainda disseram:

Não queremos cachorrinho atrás da gente.

Teimando, Paulinho os seguiu escondendo-se entre as árvores.

Os caminhos enlameados e escorregadios punham em risco a pequena aventura de cai e levanta daqueles pequenos exploradores de um espaço que eles tão bem conheciam.

A certa altura, porém, ambos escorregaram e se estatelaram dentro do córrego imundo.
Seguraram-se a uns galhos cujas raízes pareciam prestes a romper a terra encharcada. Não agüentariam por muito tempo e a forte correnteza os levaria na enxurrada.

Paulo pressentido a tragédia correu em busca de ajuda. Logo encontrou alguém que passava a alguns metros de distância e que prontamente os socorreu.

Desse modo a frágil e doce criança pode evitar uma tragédia.

Por fim, Rita e Luís, depois de restabelecidos do susto, comovidos abraçaram o irmãozinho e murmuraram juntos:

Paulinho, você foi o nosso melhor presente de Natal!

Os três se abraçaram e felizes voltaram para casa enchendo também de alegria a mãe e o pai.

Até o ipê amarelo deixou cair sobre a humilde casa as pétalas douradas de suas delicadas flores embelezando o cenário do começo de mais um capitulo que prometia muita paz e muito amor.